de Julie para mim.

Há pelo menos uns dois anos eu comecei a ler Julie & Julia, de Julie Powell, por recomendação de um grupo de leitura do Facebook (saudades, Clube do Livro). No livro, Julie Powell conta tudo sobre o seu projeto de fazer todas as 524 receitas do livro “Mastering the Art of French Cooking”, de Julia Child, em 365 dias.  Com a desculpa de que não conseguia terminar de ler um epub no celular, acabei abandonando a leitura. Até fiquei de comprar o livro para retomar, mas acabei não fazendo isso. E a história ficou para lá.

Ainda não li o livro, mas pretendo lê-lo em breve: fui à livraria tentar comprar um exemplar, mas só entregariam em 10 semanas, portanto, vai ser aquele mesmo epub que eu tinha, desta vez no kobo, não no celular.

Dia desses, “zapeando” no Netflix, me deparei com o filme e, finalmente, conheci a história. O filme conta um pouco da vida de Julie Powell e do seu projeto que é relatado num blog (o original não existe mais) e, paralelamente, a vida de Julia Child (interpretada maravilhosamente pela Meryl Streep), desde quando aprendeu a cozinhar profissionalmente no Le Cordon Bleu, em Paris, passando pelas dificuldades de escrever e publicar seu primeiro livro (o mesmo do projeto de Julie) até o momento em que surge a ideia de se tornar uma apresentadora de TV.

Entre uma receita maravilhosa e outra, o que mais me tocou nesta história foi a atitude de Julie diante do projeto. Ela relatou em um blog todos os seus altos e baixos, do dia em que não conseguir acertar a Aspic (espécie de gelatina de carne), passando pelas brigas que teve com o marido por causa do blog, pelo dia em que matou lagostas e também pela alegria de conseguir desossar um pato.

Há pelo menos um ano comecei uma preparação para os trinta anos que se aproximam – vou fazer 27 em janeiro, mas eu sou ansiosa. Esse preparo não é nada muito organizado, na verdade, é uma pilha de coisas que borbulham na minha cabeça e que, entre outras coisas, é uma vontade enorme de ter um projeto de vida, algo grande que eu me orgulhe de ter feito.

E foi por isso que me identifiquei absurdamente com a história. Claro que eu também quis muito aprender a cozinhar – sou uma admiradora das pessoas que tem esse dom maravilhoso; também senti uma vontade de morar em Paris tão forte quanto a que Julia demonstra ter e não consigo me esquecer do momento em que ela diz que prefere mil vezes comprar comidas a roupas em Paris (que é cheia de vendas e mini mercados com produtos frescos), pois lá há pouquíssimas que cabem nela (Julia Child era um mulherão, alta e forte).

A frase preferida de Julia Child <3

O projeto J&J me levou a pensar nos meus projetos e, principalmente, nos projetos engavetados que tenho, nas minhas vontades que estão à sombra e nos sonhos que mal ousam se transformar em palavras, para se manterem no nível de sonho – e não mais um desejo que murcha em um jardim sem água.

Falando assim, parece que sou a pessoa menos realizadora do mundo. Não sou. Já fiz muitas coisas que gostaria de fazer: viagens, mudanças, aquisições etc. Porém, ainda falta, ainda tem coisa que precisa se concretizar. Antes mesmo de ter um ano novo para aquecer as esperanças, eu forcei a barra e assumo: não deu exatamente certo largar o emprego para tocar meus projetos pessoais, mas deu para pensar um monte na vida, na rotina, no que eu quero desta vida. E sabe de uma, acredito que não há respostas objetivas.

Ainda me sinto como Julie antes de iniciar o projeto: louca para descobrir algo maravilhoso que traga um sentido para o dia a dia e para os trinta anos que estão chegando. A ideia ainda não veio, mas a inspiração e força de vontade, com certeza já sei onde achar.

E isso não vai ficar para lá.

só li dois livros do John Green.

Eu adoro a palavra “autotélico”, significa que algo tem uma finalidade em si mesmo e que não depende de interpretações aprofundadas para ter um sentido de existir. E também gosto muito das coisas que são assim, como filmes que são bons por contarem uma história interessante que não necessariamente nos leva a refletir por questões que ficam por trás, como se o filme fosse uma metáfora.

Mas, é difícil encontrar histórias que não sejam metafóricas. Não é preciso se aprofundar na questão semiótica – qualquer coisa que você conte, terá um fio (ou um rio) de significados inerentes que podem levar às reflexões mais diversas. E essa possibilidade de diversas interpretações que nos fazem refletir a cerca de questões mundo a fora, ou as mais introspectivas, nem sempre é a melhor parte (de um filme, livro, peça de teatro etc). Não sei o que define uma boa história, mas, quando há personagens que despertam interesse vivenciando um enredo intrigante que pode nos levar a refletir sobre um monte de coisas, acho que é meio caminho andado.

Quem é você, Alasca? (Looking for Alaska) de John Green é assim e A culpa é das estrelas (The fault in our stars) do mesmo autor também tem essa fórmula: enredo legal + personagens interessantes + fundo filosófico. Para mim, QEVA é mais tocante, mais forte. O açúcar de A culpa é das estrelas, e talvez a previsibilidade do enredo, me levam a preferir o primeiro.

Os fãs de doces frases de efeito têm em ACEDE um livro delicioso, embora um pouco triste. A personagem principal, Hazel Grace, tem um câncer bastante avançado e respira com dificuldade, mas, mesmo assim, ainda consegue fôlego para viver um romance com Augustus, um garoto nada convencional. O livro não é sobre superação, não é clichê, mas é um YA (Young Adult) bem adolescente – a história é para todas as idades, sim, mas o livro é escrito para jovens (se você não é adolescente, é bom manter isso em mente ao lê-lo). Mas, não é só isso.

ACEDE é uma linda história de amor e provavelmente vai fazer muito sucesso no cinema, assim como Diário de Uma Paixão – que na minha opinião é um filme ótimo, e não apenas por ser uma história romântica. Filmes em que o amor é o  tema principal tem um apelo a mais, porque sempre acabam tocando nas nossas feridas e emocionando mesmo que de uma forma ridícula – é por isso que os diretores inventam romance onde não tem (comum em filmes baseados em histórias reais), é a pitadinha de amor que dá graça e atrai mais espectadores. A emoção que ACEDE provoca é rica, o enredo é divertido e irreverente – quase coloquei um spoiler aqui. Ah! E se você não leu e está lembrando de Um amor para recordar, esqueça – não é clichê. Aliás, se esse é o seu filme preferido, ACEDE é substituto muito melhor.

E isso tudo é totalmente diferente de QEVA, primeiro livro publicado por Green e também um livro para jovens. As questões que circulam os acontecimentos são mais adultas, mais sérias e até mais pesadas. São questões que nos acompanham por toda a vida, como a morte, as dúvidas, o sofrimento, as dificuldades, o perdão e a amizade. A história se passa num colégio interno em que os alunos vivem em guerra uns contra os outros, contra os professores e as notas e contra as próprias emoções que parecem estar sempre borbulhando nessa idade.

O personagem central, Miles Halter (ou Gordo) coleciona últimas palavras de pessoas importantes e está em busca do “Grande Talvez”, citado por François Rabelais antes de morrer – a frase é “Saio em busca de um grande talvez”. Quando chega em Culver Creek (colégio interno), ele conhece Alasca, uma garota tentando descobrir o que é o labirinto a que Simón Bolívar se refere quando perguntou-se, antes de morrer, “Como sairei deste labirinto?” (esta frase é do romance histórico de Gabriel García Márquez, O general no seu Labirinto). Junto com mais outros amigos, eles vivem uma série de acontecimentos que vão  aos poucos revelando respostas para essas questões e também fazendo com que outras surjam. O leitor é levado refletir sobre a vida, a morte e o que há no meio.

P.s.: Vale refletir a respeito sobre o cigarro nos dois livros. Cada um tem um significado diferente, mas ambos refletem como cada personagem encara o mundo, a vida e a morte. O primeiro gif, é uma frase da Alaska, e a segunda imagem é uma frase do Augustus (o namorado da Hazel Grace).

Imagens do Weheartit.com

o enigma da lagarta.


Alice e a Lagarta

Tem gente que não consegue parar de se sabotar. Acredito que o motivo disso é falta de  vergonha na cara limites. Ou melhor, de respeitar os próprios limites. Gente que não pensa antes de abrir a boca, também acaba sendo vítima de si mesmo. Antes de xingar tudo e todos ou se conformar com a vida ruim baseando-se em todos os ciclos astrológicos que parecem conspirar contra, é melhor repensar.

A Lagarta e Alice olharam-se por algum tempo em silêncio. Por fim, a Lagarta tirou o cachimbo da boca e dirigiu-se a Alice com voz lânguida e sonolenta: “Quem é você?”. Não era um começo de conversa encorajador. Alice respondeu muito tímida: “Eu… já nem sei, minha senhora, nesse momento… Bem, eu sei quem eu era quando acordei esta manhã, mas acho que mudei tantas vezes desde então…”
“O que você quer dizer com isto?” perguntou a Lagarta com rispidez. “Explique-se melhor!”

Não sou fã dessa conversa de se conhecer bem antes de qualquer coisa. Porque se conhecer  é muito complicado, e ponto. Se as pessoas nos dissessem para anotar as coisas que mais gostamos/detestamos, o que temos vontade de fazer ou medo que aconteça, já deixaria o caminho do auto conhecimento menos ardiloso.

A utilidade disso? Mais respostas na ponta da língua. Menos roupas nunca usadas. Mais convites interessantes. Menos ressaca moral. Mais sorriso brilhante. Menos arrependimento.

Digo isso porque eu não quero ver mais uma criatura sequer sabotando o próprio destino, nem deixando as ervas daninhas chegarem de fininho com mais terror. NÃO!

Desta vez, Alice esperou pacientemente até que ela resolvesse falar de novo. Após um ou dois minutos, a Lagarta afastou o narguilé, bocejou uma ou duas vezes e espreguiçou-se. Depois desceu do cogumelo e saiu rastejando pela grama, dizendo simplesmente, enquanto se afastava: “Um lado fará você crescer, o outro fará você diminuir.”

 

Trechos do livro Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll.