só li dois livros do John Green.

Eu adoro a palavra “autotélico”, significa que algo tem uma finalidade em si mesmo e que não depende de interpretações aprofundadas para ter um sentido de existir. E também gosto muito das coisas que são assim, como filmes que são bons por contarem uma história interessante que não necessariamente nos leva a refletir por questões que ficam por trás, como se o filme fosse uma metáfora.

Mas, é difícil encontrar histórias que não sejam metafóricas. Não é preciso se aprofundar na questão semiótica – qualquer coisa que você conte, terá um fio (ou um rio) de significados inerentes que podem levar às reflexões mais diversas. E essa possibilidade de diversas interpretações que nos fazem refletir a cerca de questões mundo a fora, ou as mais introspectivas, nem sempre é a melhor parte (de um filme, livro, peça de teatro etc). Não sei o que define uma boa história, mas, quando há personagens que despertam interesse vivenciando um enredo intrigante que pode nos levar a refletir sobre um monte de coisas, acho que é meio caminho andado.

Quem é você, Alasca? (Looking for Alaska) de John Green é assim e A culpa é das estrelas (The fault in our stars) do mesmo autor também tem essa fórmula: enredo legal + personagens interessantes + fundo filosófico. Para mim, QEVA é mais tocante, mais forte. O açúcar de A culpa é das estrelas, e talvez a previsibilidade do enredo, me levam a preferir o primeiro.

Os fãs de doces frases de efeito têm em ACEDE um livro delicioso, embora um pouco triste. A personagem principal, Hazel Grace, tem um câncer bastante avançado e respira com dificuldade, mas, mesmo assim, ainda consegue fôlego para viver um romance com Augustus, um garoto nada convencional. O livro não é sobre superação, não é clichê, mas é um YA (Young Adult) bem adolescente – a história é para todas as idades, sim, mas o livro é escrito para jovens (se você não é adolescente, é bom manter isso em mente ao lê-lo). Mas, não é só isso.

ACEDE é uma linda história de amor e provavelmente vai fazer muito sucesso no cinema, assim como Diário de Uma Paixão – que na minha opinião é um filme ótimo, e não apenas por ser uma história romântica. Filmes em que o amor é o  tema principal tem um apelo a mais, porque sempre acabam tocando nas nossas feridas e emocionando mesmo que de uma forma ridícula – é por isso que os diretores inventam romance onde não tem (comum em filmes baseados em histórias reais), é a pitadinha de amor que dá graça e atrai mais espectadores. A emoção que ACEDE provoca é rica, o enredo é divertido e irreverente – quase coloquei um spoiler aqui. Ah! E se você não leu e está lembrando de Um amor para recordar, esqueça – não é clichê. Aliás, se esse é o seu filme preferido, ACEDE é substituto muito melhor.

E isso tudo é totalmente diferente de QEVA, primeiro livro publicado por Green e também um livro para jovens. As questões que circulam os acontecimentos são mais adultas, mais sérias e até mais pesadas. São questões que nos acompanham por toda a vida, como a morte, as dúvidas, o sofrimento, as dificuldades, o perdão e a amizade. A história se passa num colégio interno em que os alunos vivem em guerra uns contra os outros, contra os professores e as notas e contra as próprias emoções que parecem estar sempre borbulhando nessa idade.

O personagem central, Miles Halter (ou Gordo) coleciona últimas palavras de pessoas importantes e está em busca do “Grande Talvez”, citado por François Rabelais antes de morrer – a frase é “Saio em busca de um grande talvez”. Quando chega em Culver Creek (colégio interno), ele conhece Alasca, uma garota tentando descobrir o que é o labirinto a que Simón Bolívar se refere quando perguntou-se, antes de morrer, “Como sairei deste labirinto?” (esta frase é do romance histórico de Gabriel García Márquez, O general no seu Labirinto). Junto com mais outros amigos, eles vivem uma série de acontecimentos que vão  aos poucos revelando respostas para essas questões e também fazendo com que outras surjam. O leitor é levado refletir sobre a vida, a morte e o que há no meio.

P.s.: Vale refletir a respeito sobre o cigarro nos dois livros. Cada um tem um significado diferente, mas ambos refletem como cada personagem encara o mundo, a vida e a morte. O primeiro gif, é uma frase da Alaska, e a segunda imagem é uma frase do Augustus (o namorado da Hazel Grace).

Imagens do Weheartit.com

‘to do list’ da Sra. Bennet

(Cena do Filme Orgulho e Preconceito, Joe Wright – 2005)

Ao invés de escrever mais uma resenha sobre Orgulho e Preconceito (Jane Austen) preferi escrever uma lista das coisas que a Sra. Bennet acha mais importante. Para quem nunca viu o filme ou leu o livro, uma breve sinopse: em 1787,  numa pequena cidade da Inglaterra, vive a família Bennet. Sr. e Sra. Bennet têm cinco filhas, a mais velha, Jane, é a mais bela e a mais doce. Elizabeth, a protagonista da história, tem um temperamento diferente da maioria das moças da época, sua personalidade é forte e não se deixa ser convencida facilmente. Lydia e Kitty estão mais preocupadas em arrumar um bom partido e ir aos bailes para dançar. Mary é a “nerd” da família.

O chicklit de época conta as aventuras e desventuras amorosas dessas meninas, sob o olhar de Lizzy. O livro tem esse nome principalmente por causa do seu romance com o Sr. Darcy, um homem muito rico, arrogante e orgulhoso.

Bem, mas uma mãe de cinco filhas moças que ainda sofre dos nervos, não poderia se preocupar com nada além de como suas filhas podem ter uma vida feliz e confortável. E também não pode se descuidar dos vizinhos… Por isso, ela precisa de uma lista!

To do list – Sra. Bennet

1 – Convencer o Sr. Bennet a visitar todos os rapazes que chegarem às redondezas;

2 – Prestar atenção aos pratos servidos na casa dos Lucas para sempre preparar jantares melhores;

3 – Exaltar a beleza das meninas, principalmente a de Jane, que é a mais bela;

4 – Quando falar de Lizzy, exaltar os seus olhos, que são seu ponto forte;

5 – Garantir que as meninas sejam sempre as mais bonitas nos bailes;

6 – Evitar que elas fiquem mais do que uma dança sentadas;

7 – Não permitir nunca que casem com um homem pobre;

8 – Fazer o possível para que depois de casadas elas não se mudem para tão longe;

9 – Cuidar ao máximo para que fofocas negativas não cheguem à vizinhança;

10 – Casar as filhas antes dos Lucas.

Em janeiro, foi comemorado o bincentenário de Orgulho e Preconceito e a Revista 21 fez uma semana especialmente dedicada :)

o axé de Copacabana.

Que Deus te livre de mau olhado
acidente aéreo e de carro
facada ou tiro
traição
falsidade
olho gordo e inimizade.

Que a Nossa Senhora olhe por ti
que não falte dinheiro
nem sorte
nem saúde
e nem amor.

Que quando você chegue em casa e vá olhar na sua carteira tenha R$50 reais a mais do que ontem. Que, tarde da noite, na Central do Brasil, ninguém leve seu smartphone. Que o ônibus apareça na hora certa e que suas canelas corram bastante para alcançá-lo. Vai dar tudo certo. Amém.

p.s.: Realmente eu recebi um ‘axé’ do pai de santo (nem sei se é pai de santo que diz) da foto. E foi de graça. Foi presente. O último parágrafo é baseado em fatos verídicos. A reza do começo eu escrevi do jeito que eu acho que era, mas pode não ter nada a ver.

pizza quântica.

Eu nunca tive muito interesse por números. Jornalista não precisa entender algoritmos, só precisa entender as quatro operações e saber usar a regra de três (será?). Sempre estive no time das letras e não dos números – os complicadinhos. O que eu não sabia, era que eu estava completamente enganada sobre eles. Números não são complicados.

Se a física quântica diz que uma partícula só pode ter valores de energia x ou y, e que outros valores são proibidos,  é assim que acontece até que alguém prove cientificamente o contrário. Com as letras não é assim. As regras flutuam, um texto é bom ou não de acordo com o ponto de vista de alguém que tem prestígio para dizer que é. Outra pessoa diz que é péssimo, e aí é péssimo e é bom.

Ainda que os fragmentos de realidade que são estudados em física possam variar de acordo com o seu estado, as leis da quântica sempre permitirão calcular a probabilidade de se encontrar um elétron em uma dada região do núcleo de um átomo, por exemplo. O resultado será válido para todas as vezes em que considerarem as mesmas condições físicas.

Não tem isso com as letras. As regras podem ser quebradas e reconstruídas no mesmo espaço. Os estados não podem ser reproduzidos porque os contextos mudam a todo instante. Se eu ler de relance a palavra pizza hoje, posso pensar no bolão do mensalão, amanhã pode ser calabresa ou marguerita.

pensar dentro da caixa.

O mundo está cheio de informações, mas é cheio mesmo. O acervo da Wayback machine, local onde ficam armazenados os sites do Internet Archive, cresce nada menos do que 200 terabytes por mês! Só para se ter uma ideia, em 1 terabyte é possível armazenar 1.428 filmes de 700MB cada. Esse monte de informação remete logo aos rios do mais puríssimo besterol que a internet da vazão. Mas, é melhor ser otimista e lembrar que é assim que o acesso se abre para as coisas que fazem arregalar os olhos.

Essa história tem a ver com Kenneth Goldsmith, criador do Ubuweb. O site não tem a interface mais amigável do mundo, mas guarda um conteúdo que merece ser explorado. Goldsmith é professor de “redação não criativa” na Universidade da Pensilvânia e é um ótimo exemplo de como essa penca de conteúdo pode ser canalizada de maneira positiva. O chocante é que ao invés de dizer para os alunos criarem coisas novas, ele incentiva releituras, remixes, replicação, plágio e pirataria.

Na verdade, a anarquia tem limite e uma finalidade interessante. Recomendo a leitura da entrevista com ele aqui no site da Revista Select.  É bom para repensar questões maiores da produção cultural, como a autoria do que é produzido em tempos de internet e como podemos simplesmente reciclar ideias sem medo de parecermos não criativos ou kibadores de uma figa.

acampar num teardrop.

Imagina que delícia acampar num lugar bonito num teardrop super fofo que nem esse? Melhora qualquer final de semana! Para alugar um teardrop, como são chamados esses “trailerzinhos”, você pode clicar aqui: http://vacations-in-a-can.com. Seria mais legal (mais fácil) se fosse no Brasil!

como chegar à crooked house.

Vendo uma série de fotos que parecem ter sido feitas com photoshop me deparei com essa imagem que realmente não se trata de photoshop. Não, eu não estive lá para conferir. Mas, descobri que fica numa cidade chamada Sopot, na Polônia. O design das casas é do arquiteto polonês Szotynscy Zaleski, inspirado pelas ilustrações de contos de fada do artista Jan Marcin Szancer e também pela arte de Per Dahlberg.

Ilustração de Szancer

E eu fiquei tão curiosa para conhecer essa “casa torta” que resolvi simular como seria o meu trajeto até lá. O primeiro passo foi descobrir qual das cidades polonesas que têm aeroporto (ou voo saindo de Recife) fica mais perto de Sopot, cidade onde ficam as casinhas. A resposta é Varsóvia. Então a primeira coisa a se fazer é comprar uma passagem para Varsóvia. Saindo de Recife eu encontrei passagens entre R$3k  e quase R$ 4k. Carinho, hein? (mas como eu não tenho o dinheiro mesmo, tá ok hehehe)

(aeroporto >> ônibus 634 para descer perto de Warzawa centralna (estação central) // ou táxi)

O segundo passo foi descobri como chegar de Varsóvia até Sopot. Pesquisando no Google eu achei esse site que vende tickets de trem. Lá você também encontra horários, preços e pode comprar online – super eficiente. Além disso, a viagem tem um preço bem ok. Os quase 400 km que separam Varsóvia de Sopot iriam me custar entre 90 e 95 zloty (moeda polonesa), o que significa uns US$28! Na verdade o trem deixa na estação de Gdansk, de lá é só mais um ônibus e em 20 minutos eu já estaria no albergue em Sopot.

Essa é a estação Gdansk, a última parada antes de Sopot:

Antes de chegar à Crooked House, eu iria deixar minha mochila no Siesta Hostel, o mais baratinho e charmoso que eu encontrei. Eu vi que a diária custava US$ 17, mas não sei se esse preço está atualizado. Mesmo assim, se for o dobro ainda está ok. Até porque ele fica a 20 minutos da estação Gdańsk, que é a mais perto de Sopot.

Olha a frente do albergue!

Daí, eu caminharia um pouquinho mais de um quilômetro até a rua onde fica a Crooked House :) Vejam na foto do Google Maps como é bonitinha a rua em que ela fica. 

E aí, curtiram a viagem? Pena que foi só via Google Maps, né?