dois sopros, 4 suspiros.

Eles viviam numa casinha com uma árvore na sala e uma mesinha de jantar. Às vezes, as paredes cochichavam. O quarto tinha uma janela que sabia de todos os segredos. Ali, dormiram de conchinha desde que apareceu o primeiro fio branco na barba dele, numa noite de outono.

Não importava o quão quente e seco fosse o dia, o lugar tinha sempre um cheirinho meio úmido de perfume, cigarro e vinho derramado. A vida era branda em todas as suas realidades – mas só quando ele segurava sua mão.

Ele pescava e ela preparava o jantar. Antes de comer, dançavam uma música que tocava só para eles. Depois, fumavam e contavam as estrelas. Às vezes, saiam juntos para pescar, mas ficavam jogados na água. Esparramados.

Ela o amava, e amava principalmente o jeito que ele levava a vida exatamente para onde queria, mesmo quando parecia estar deixando passar.

Ela nem era tão bonita. Ele era bonito de corpo, alma, sorriso torto.

Ele gostava do jeito que ela levava a vida sempre com mãos firmes às rédeas. Ela gostava de como ele não precisava tomá-las.

À noite, ele apresentava para ela as criaturas fantásticas que habitam este plano mas que nem todo mundo consegue ver. Ela nunca veria sozinha.

Ela amava tanto aquele ritmo lento, contínuo, mais rápido, lento, muito rápido, lento e lento.

Dois sopros e 4 suspiros mais tarde, ela sumiu. Ele sumiu para sempre.

Lady lights a cigarette, puffs away and winter comes.

feliz aniversário, atrasado.

sunrise

No dia 30 de janeiro completei 27 anos, temidíssimos 27 anos. Acho que essa é a primeira idade em toda a minha vida que teve algum peso. Quando eu tinha uns 11 anos, achava que aos 15 tudo seria possível. Aos 15, descobri que ainda não poderia fazer quase nada do que eu queria (ir a todas as festinhas, por exemplo). Quando fiz 18, rolou aquele “uhuu, posso ser presa” bem bobo que sempre rola, mas não parecia que muita coisa tinha mudado. E talvez não tivesse mesmo.

Desde o meio do ano passado estou numa preparação para esses 27 anos – é como se a idade viesse com várias cobranças, ou como se “caísse a ficha” em forma de perguntas: o que eu tenho feito de bom desta vida? O que estou acumulando (de bom e de ruim)? O que estou deixando passar? E por aí segue…

“Calma, Tássia, idade é uma coisa idiota”. Eu sei.

Mas sabe o que é?
Parece que agora, depois das coisas que vivi, consigo finalmente enxergar a minha vida e o mundo com uma maturidade que gostaria de ter tido aos 18, mas que seria impossível, obviamente. E aí, me dá uma vontade imensa de sair refazendo algumas coisas, reparando o que não foi feito ou que estava desajustado: a carreira, os hábitos, a forma de enxergar a vida, a maneira como lido com certos assuntos e até com pessoas.

Você já sentiu isso?
É uma vontade maluca de viver e reviver para ir amarrando uns pontos que ficaram meio soltos e acrescentar outros que estavam faltando. Porque a vida pode ser remendada de vez em quando, certo?

E o que eu tenho feito?

A minha carreira profissional é uma coisa que tem bastante importância para mim. Claro, eu trabalho (trabalhava, estou desempregada) porque preciso de dinheiro e a remuneração é algo que importa bastante. Mas, não é só isso. Desde o ano passado tenho repensado o que quero fazer e até larguei meu antigo emprego para pensar um pouco (e aproveitar para tocar o Santo e o 4dogs). Agora, consigo ver com mais clareza quais são os passos que devo dar para seguir construindo o meu ofício e o que sou.

Também tenho cuidado com mais carinho de mim mesma, tentando me alimentar de coisas positivas (não só saudáveis). Isto é, ter uma dieta saudável sim, mas se permitir nutella sem culpa durante a TPM ou tomar uma coca-cola quando for comer pizza (é só não comer pizza todo santo domingo!); tinha pensando em desistir do tecido acrobático (pois muito caro), mas resolvi continuar e passei a fazer pilates para tentar melhorar meu problema no joelho (condromalácia patelar); estou aprendendo a gostar mais de cuidar da minha casinha com a ajuda de seriados enquanto lavo louça, por exemplo; e até estou tentando trabalhar melhor o meu estilo com a ajuda do livro da Cris e da Rê, da Oficina de Estilo!

Lapidar dá trabalho, mas acho que daqui pros 30, vou gostar muito mais de mim mesma. Não que eu não goste agora, mas acredito que tem muita coisa que pode melhorada. E feliz 27 anos para mim, agora que sinto que finalmente as coisas realmente mudaram com o tempo.

Fotografia: Ed Yourdon

a vida e o merengue de morango.

Pint of Strawberries
Fotografia – Mr.TinDC

Eu só sei fazer risoto. Outro dia fiz uma carne facílima com molho de limão siciliano, mas nunca passa disso. Para a festa de réveillon decidi que faria um merengue de morango para os meus amigos – uma receita simples.

Uma semana antes da data, pesquisei umas receitas de liquidificador, mas lendo e conversando com meu namorado que entende muito mais de cozinha, decidi que seria melhor comprar uma batedeira, e comprei.

Dia 1
Um dia antes da festa, fui fazer o teste: comprei ingredientes, assisti ao vídeo com a receita que eu escolhi 258 vezes e comecei a seguir o modo de fazer sem piscar o olho. A receita diz o seguinte: faz a calda de açúcar, mistura com claras em neve e bate por 15 minutos – é só isso! Na primeira tentativa, a clara em neve não funfou ou eu errei o ponto da calda de açúcar. Na segunda tentativa, eu achei que tinha dado certo, guardei na geladeira, mas depois vi que o merengue começou a açucarar.

Acabaram-se os ovos e já era mais de meia noite.

Dia 2
Comprei uma bandeja de ovos grandona (acho que vem 24) e os morangos que ainda não tinha. Lá fui eu tentar de novo, e de novo algo deu errado com o meu merengue. Joguei a receita toda fora, já com os olhos marinados, digo, marejados. Enquanto isso, o pernil que meu namorado estava assando reluzia.

Ok. Começa tudo de novo, com cuidado redobrado.

Confere o ponto da calda na água gelada, para ter certeza que está em ponto de bala mole. Olha direitinho se a clara está mesmo em neve e – UFA! – finalmente deu certo! Mas, pera. Tem muito pouco. E faz mais duas receitas para completar o bowl de merengue (a segunda ficou meio mole, mas já era quase 20h, então, foi assim mesmo).

Ficou lindo e delicioso. Não sei por que raios não tirei uma foto dele pronto.

No dia 1 de janeiro, pensei na saga do meu merengue. Percebi que o principal motivo da minha impaciência para cozinhar é que seguir a receita nem sempre garante que tudo dará certo, existe tentativa e erro. Isso é muito óbvio, né? Para mim não era. Mas, em seguida, lembrei das minhas aulas de tecido acrobático e acho que cozinhar é um pouco parecido. Quando eu vou aprender um movimento novo, nem sempre consigo acertar de primeira, ou executar da melhor maneira, por isso, repito o movimento várias vezes até realmente aprendê-lo.

E assim são outras coisas na vida, certo?

Nem sempre a gente acerta a faculdade de primeira, ou lê um livro e entende tudo na primeira vez. A gente também erra no primeiro namorado – às vezes morre de arrependimento depois, mas, fazer o quê? Erramos nas primeiras vezes em que vamos fazer a sobrancelha em casa ou escolher uma casa. Mas, e daí? A gente muda, joga fora e recomeça.

E sabe qual é a nossa sorte? Enquanto houver vida, haverá mais ovos para começar a bater outra clara em neve.

de Julie para mim.

Há pelo menos uns dois anos eu comecei a ler Julie & Julia, de Julie Powell, por recomendação de um grupo de leitura do Facebook (saudades, Clube do Livro). No livro, Julie Powell conta tudo sobre o seu projeto de fazer todas as 524 receitas do livro “Mastering the Art of French Cooking”, de Julia Child, em 365 dias.  Com a desculpa de que não conseguia terminar de ler um epub no celular, acabei abandonando a leitura. Até fiquei de comprar o livro para retomar, mas acabei não fazendo isso. E a história ficou para lá.

Ainda não li o livro, mas pretendo lê-lo em breve: fui à livraria tentar comprar um exemplar, mas só entregariam em 10 semanas, portanto, vai ser aquele mesmo epub que eu tinha, desta vez no kobo, não no celular.

Dia desses, “zapeando” no Netflix, me deparei com o filme e, finalmente, conheci a história. O filme conta um pouco da vida de Julie Powell e do seu projeto que é relatado num blog (o original não existe mais) e, paralelamente, a vida de Julia Child (interpretada maravilhosamente pela Meryl Streep), desde quando aprendeu a cozinhar profissionalmente no Le Cordon Bleu, em Paris, passando pelas dificuldades de escrever e publicar seu primeiro livro (o mesmo do projeto de Julie) até o momento em que surge a ideia de se tornar uma apresentadora de TV.

Entre uma receita maravilhosa e outra, o que mais me tocou nesta história foi a atitude de Julie diante do projeto. Ela relatou em um blog todos os seus altos e baixos, do dia em que não conseguir acertar a Aspic (espécie de gelatina de carne), passando pelas brigas que teve com o marido por causa do blog, pelo dia em que matou lagostas e também pela alegria de conseguir desossar um pato.

Há pelo menos um ano comecei uma preparação para os trinta anos que se aproximam – vou fazer 27 em janeiro, mas eu sou ansiosa. Esse preparo não é nada muito organizado, na verdade, é uma pilha de coisas que borbulham na minha cabeça e que, entre outras coisas, é uma vontade enorme de ter um projeto de vida, algo grande que eu me orgulhe de ter feito.

E foi por isso que me identifiquei absurdamente com a história. Claro que eu também quis muito aprender a cozinhar – sou uma admiradora das pessoas que tem esse dom maravilhoso; também senti uma vontade de morar em Paris tão forte quanto a que Julia demonstra ter e não consigo me esquecer do momento em que ela diz que prefere mil vezes comprar comidas a roupas em Paris (que é cheia de vendas e mini mercados com produtos frescos), pois lá há pouquíssimas que cabem nela (Julia Child era um mulherão, alta e forte).

A frase preferida de Julia Child <3

O projeto J&J me levou a pensar nos meus projetos e, principalmente, nos projetos engavetados que tenho, nas minhas vontades que estão à sombra e nos sonhos que mal ousam se transformar em palavras, para se manterem no nível de sonho – e não mais um desejo que murcha em um jardim sem água.

Falando assim, parece que sou a pessoa menos realizadora do mundo. Não sou. Já fiz muitas coisas que gostaria de fazer: viagens, mudanças, aquisições etc. Porém, ainda falta, ainda tem coisa que precisa se concretizar. Antes mesmo de ter um ano novo para aquecer as esperanças, eu forcei a barra e assumo: não deu exatamente certo largar o emprego para tocar meus projetos pessoais, mas deu para pensar um monte na vida, na rotina, no que eu quero desta vida. E sabe de uma, acredito que não há respostas objetivas.

Ainda me sinto como Julie antes de iniciar o projeto: louca para descobrir algo maravilhoso que traga um sentido para o dia a dia e para os trinta anos que estão chegando. A ideia ainda não veio, mas a inspiração e força de vontade, com certeza já sei onde achar.

E isso não vai ficar para lá.

ela não merece ser estuprada.

Não é aceitável que nenhum ser humano discurse ódio e preconceito. E ninguém em lugar nenhum deste mundo merece atitudes como as do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ). O que existe hoje de opressão e violência de todos os tipos contras as mulheres, já é inaceitável. O fato de pessoas horrendas poderem eleger um representante de ódio para a Câmara dos Deputados é ainda mais devastador. Dá medo. É o time do seu pior inimigo sendo representado no Estado, no caso, como deputado federal, com poder para propor e discutir leis.

É difícil pensar no que me dá mais medo.

Para chegar à Câmara de Deputados, qualquer indivíduo precisa, primeiramente, convencer as pessoas de que ele é uma pessoa decente e que irá representá-las com o poder que terá quando assumir o cargo.

O estado do Rio de Janeiro, de onde vieram as pessoas que elegeram Bolsonaro, tem 10 milhões de eleitores (dos 16 milhões de habitantes) e, portanto, tiveram a oportunidade de eleger 46 deputados para representar o seu estado. Desses 10 milhões, 464.572 votaram no canditado que disse que não estupraria a Deputada Maria do Rosário, porque, segundo ele, ela não mereceria.

Quem merece ser estuprada?

Eu tenho certeza de que nenhuma mulher merece. Mas eu tenho medo do que pensam quase meio milhão de cariocas que votaram em um ser tão absurdamente estúpido que me recuso a acreditar que seja humano. Também tenho medo das leis que ele poderá propor ou aprovar, já que pensa de maneira violenta e opressora.

Eu li que a moça Sheherazade publicou um texto defendendo o deputado, explicando que ele falou sem pensar, pois a deputada Maria do Rosário havia começado a discussão chamando o deputado de estuprador. Mas, como essa não foi a primeira declaração violenta, opressora, preconceituosa feita por Bolsonaro, continuo a ter medo de pessoas como ele, a Sheherazade e os eleitores que concordam com esse pensamento draconiano.

sentant Paris.

Assim como há significado para tudo, há sentimento. E, antes de “chegar ao coração”, dá pra sentir na pele, nos olhos, nos cabelos, nos sapatos, nos dentes, nos ouvidos – envolve tudo. Umas coisas nos provocam mais, outras menos, mas há aquelas que mexem com todo mundo. Assim é Paris.

O sentimento que a cidade exala é marcante como os seus perfumes. O jeito confortável como os franceses vivem as suas vidas e os seus baguetes incomodam. Sim, mas é algo bom, dá vontade de viver como eles, de compartilhar essa simplicidade que deixa tudo simplesmente chic . Dá mais sede de vinho em Paris, dá vontade de parar em mais de um café a caminho de casa (ah, que sonho morar lá!), a gema mole do meu croque madame reflete a torre Eiffel!

Em Paris, eu não ligo para o melhor carro do ano. Eu só quero ver a cidade de bicicleta ou a pé, sair cedo do trabalho e talvez pegar o caminho mais longo, porque vale a pena. Ainda mais se no meu caminho eu puder cruzar o Jardin du Tuileries ou o Luxembourg.

As cores de Paris não brilham mais que as de Amsterdã, mas o sentimento parisiense é como um filtro quente, no tom certo da sensatez, do melhor sabor. E nem importa se é o mais bonito, porque é o mais aconchegante. Com cheirinho de café e croissant au chocolat.

muito estranho.

Muito magro, muito pálido. Perdido. Completamente perdido. Olhava para o nada, via tudo e nada ao mesmo tempo. Pessoas com passos apertados, guarda-chuvas pretos, chuvisco cinzento.

O vento gelado era um banho álcool no seu rosto sangrento. A maçã ossuda do lado esquerdo brilhava e escorria pelo queixo. Como um pássaro adormecido com as asas quebradas, nunca sairia daquele lugar.

Seus cabelos cresciam para o alto. Um jeans sujo mal alcançava seu calcanhar. O moletom azul que cobria o seu peito magro não agasalhava, não escondia.

A velocidade do pensamento era tão fulgaz que se desfazia antes de chegar ao próximo. Isso calava a sua boca, tampava seus ouvidos. A respiração continuava forte. Os olhos se espremiam numa tentativa de afastar a dor e alguns pensamentos.

Era insano e estava perdido. Não sabia se tinha para onde ir. E se tivesse não iria. Mas era bem verdade que existia. Estava ali, a pele cortada e banhada de sangue concretizava todos os sentimentos; vivos, acordados.